segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O BICHO GRILO




Existe uma grande diferença entre fé e otimismo. Vocês duvidam? Vamos a um exemplo. Fé é você nesta altura do campeonato, torcer pelo São Paulo e achar que pode ser campeão brasileiro. Otimismo é torcer pelo Corinthias e achar que existe uma grande chance de ganhar o campeonato, pois ainda é matematicamente possível. Dois parâmetros distintos.

Havia muito otimismo em meu tempo de estudante universitário, em relação a queda da ditadura. Uns confundiam este otimismo com fé. Big Mistake! Diria, mesmo sendo muito jovem naquela época, já tinha consciência que as chances do Corinthias ser campeão este ano, eram maiores do que se derrubar o governo Médici naquela época.

O citado senhor tinha o nome e a pinta de um verdadeiro papa da era medieval. Daqueles que achavam que o mundo lhe pertencia. Ia para o Maracanã com radinho de pilha torcer pelo Flamengo. Vejam só, ele nasceu em Bagé, de uma família basco-italiano oriunda do Uruguai. Logo, ele poderia torcer para o Nacional de Montevideo, pelo Grêmio ou Palmeiras, nunca pelo Flamengo. Vou muito a Bagé – área de criação de cavalos de corrida - e não conheço ninguém que seja Flamengo. Mas porque escolheu o Flamengo? Por que parecia ser o mais conveniente. Um otimista com certeza.

Nunca fui político e muito menos politizado. Naquela época detestava toda e qualquer discussão sobre as teorias de Marx, Engels, Nietzsche, Lênin, e outros reis da cocada preta da época. Evidente que neste tempo eu não discutia por não entender e muito menos por não gostar. Hoje que entendo, um pouquinho, acho ainda mais triste discussão destas teses que levaram o mundo a virar sua pernas para o ar.

Idéias criam conseqüências. Más idéias, criam más conseqüências.

Tenho plena convicção que muitas mortes, misérias e desilusões teriam sido evitadas se Adolf Hitler não tivesse escrito o Mein Kamph, se Karl Marx não tivesse inventado o Manifesto Comunista e até Niccholò Machiavelli, o Principe.

Na Santa Úrsula onde estudei a coisa era branda. Escolhinha de gente que não queria se comprometer. E eu era um deles. Mas na Nacional no fundão, havia os chamados bichos grilo, que estudavam vivamente todas as correntes de esquerda e queriam provar as de extrema direita que estes estavam errados. Até aí tudo bem, pois, se o cara quer enfrentar, de livre e espontânea vontade um tanque se utilizando de um estilingue, o problema é dele. Só que isto que ele acredita ser ilibada fé, na verdade não passava de um otimismo suicida. Mas afinal, o cara um dia leu a bíblia e descobriu que qualquer David podia derrubar um gigante com uma funda.

Eu diria que só na Bíblia o David abateria o Golias...

Pois bem, o problema é que o bicho grilo não queria apenas enfrentar a ditadura. Ele queria convencer a você que: primeiro ele estava certo e segundo que você tinha que acompanhá-lo. E assim formaram-se as pequenas heróicas brigadas bracaleônicas.

Vocês se lembram do filme, o incrível exército de Brancaleone, com o Vitório Gazmman e seu cavalo amarelo?

Houve uma outra facção que reagiu. Bem mais organizada e muito melhor equipada. E mesmo assim foram dizimados. Sucumbiram, pois, a força militar naquela época era bastante grande.

Não cabe a mim discutir a ditadura. Sempre achei que lugar de militar é no quartel. Todavia, quando eles acharam que o Brasil era um grande quartel, senti que estava no pais errado. A classe media deu o nosso Brasil de mão beijada a eles, e o Jango Goulart, apenas foi a última gota, que fez a água transbordar.

Getulio previu o que aconteceria e ao se suicidar, simplesmente adiou a eminente revolução que os militares, apoiados pela UDN, tinham já alinhavado. A tentativa de não deixar Juscelino assumir, a queda de Jânio, a nova tentativa de não deixar Jango assumir com a renuncia de seu antecessor, não tiveram o respaldo do povo da forma que os militares desejavam. E os mentores desta revolução se mantiveram aquartelados. Mas o Jango pisou na jaca e o motivo lhes sorriu, finalmente.

Os bichos grilos de minha época não sacaram que era inevitável a ditadura naquele momento, como o foi no Chile, na Argentina e em outros países da America do Sul. O mesmo havia acontecido, décadas antes na Europa com Salazar, Franco, Hitler, Tito, Stalin, Mussolini e com Getúlio e Perón em nosso continente.

Mas os bichos grilos puxavam de seus livros escondidos em suas mochilas para defender Marx, Engel, Nietzche, Freud e até Betty Friedan entre outros menos votados.

Nunca perdi a fé, mas sempre tive plena consciência onde ela terminava e iniciava o otimismo suícida. Detestei a ditadura embora não tenha sofrido com a mesma. Sabia, como todas as outras um dia teria o seu fim. Pois, regimes como estes, tendem a se desmanchar que nem leite Glória. Não tem ideologia nem consistência. O que realmente me encheu o saco, foram os bichos grilos de minha época.