sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

OS MEUS DOIS QUARTEIRÕES EM SÃO PAULO




MEUS DOIS QUARTEIRÕES NA PAULICÉIA

São Paulo, como metrópole não deve nada a nenhuma outra. Digo isto, pois, viajo com certa freqüência e meus destinos não são exóticos e muito menos históricos. São tradicionais.

Como vocês sabem trabalho com cavalos de corrida e são nas grandes metrópoles que estão os mais importantes hipódromos e conseqüentemente os maiores investidores deste mercado.


Pois é, São Paulo e Rio de Janeiro são os nossos dois mais importantes pólos de desenvolvimento turfístico. Visito com uma boa freqüência a ambos, mas confesso que a cada vez que venho a São Paulo me impressiono com a sua grande capacidade de mutação. Se bicho o fosse, diria que São Paulo é um camaleão. Sua capacidade de transformar-se e ínfimo tempo necessário para tal, é simplesmente aterrador, a começar pelo comércio. Ele é de primeiro mundo. Não há loja em Milão ou New York que aqui não tenha uma sua filial.

Mas como não existe bônus sem ônus, São Paulo paga hoje, por sua expansão e seu trânsito, que de infernal e caótico como o do Rio de Janeiro, passou a escala máxima de impossível de se suportar.

Morei um tempo no Upper East Side de Manhattan, ali na altura da 70 entre a primeira e a segunda. Lá aprendi rapidinho que você deve dar muito valor a seus dois quarteirões, pois, será ali que você passará a maior parte de sua existência. Nestes dois quarteirões deverão estar todas as suas necessidades. Pois, em São Paulo, acontece o mesmo e creio que achei os meus dois quarteirões.


São Paulo tem bons hotéis e dentro do padrão comercial, mais baratos do que o Rio de Janeiro. Gosto de ficar em um na Manuel Guedes, ali bem no centro do Itaim Bibi. A Manuel Guedes é uma rua pequena e no trecho entre a Tabapuã e a Pedroso Alvarenga, você pode montar o seu mundo. Pois, o trânsito não é apenas o único problema de São Paulo. Existe também a chuva. Em São Paulo, não apenas chove, jorra!

A gastronomia que São Paulo suplanta a toda e qualquer outra cidade brasileira e diria, sem estar receoso de estar cometendo um nacionalismo barato, que em termos de restaurante se equipara a Paris, Roma ou New York. Já suplanta Buenos Aires e Madrid e demais centros gastronômicos. E o que mais me surpreende é a quantidade de qualidade existente no número de restaurantes por aqui.

Nos meus dois estão localizados o Due Cuochi, onde gosto de fazer minhas refeições, uma padaria chamada Saint German e a eterna Kopenheigen – neste caso uma que é um charme, com lugar para sentar e ler - que ainda fabrica um de meus maiores vícios, a Nha Benta. A tradicional. Não encontro Nha Benta nos Estados Unidos, logo, a primeira dentada depois de um longo e duradouro afastamento, chego a pensar que seja melhor do que sexo.



Quando quero variar, ou em outras palavras gastar mais um pouco, estou a poucas quadras do Parisi, de uma churrascaria a Barbacoa, que igualmente fica muito próxima, na Renato Paes de Barros e me parece tão boa como a Rubayat Figueira e do Fifties que tem um hamburger e um milkshake que entram pela madrugada a dentro e como o Cervantes no Rio – guardadas as devidas proporções – é uma garantia de não se ir para a cama de barriga vazia. Sem contar dois bistrôs franceses de primeiríssimo nível, o Gran Expresso, uma opção para variar o Saint Germain, uma livraria pequena mas maneira, a Nobel, uma sorveteria do demônio chamada Viteperia e um punhado de barzinhos irados. Pensei que apenas os cariocas gostavam de barzinhos. Enganei-me, os paulistas adoram. O Vaca Veia é o mais animado de todos. Diria ser um point. Moral da história tô garantido em todas as minhas bases.

Pois bem, costumo almoçar no Due Cuochi, mas desta feita descobri que uma quadra antes - a mesma do meu hotel - abriram mais dois estabelecimentos. Passei no primeiro dia, olhei, gostei do que vi, mas não arrisquei. Quando você chega aos sessenta, experimentar não é mais a sua principal pedida. Repetir aquilo que gosta sim. Há muito tempo não faço sequer novos amigos. Procuro sim, interagir mais freqüentemente com os artigos e tentar não perde-los.

Com restaurantes acontece a mesma coisa. Logo, continuei a caminhada e fui no meu preferido, onde para variar fui mais uma vez bem servido. Mas da mesma forma que você se acostuma, você tende a querer mudar. A mudança é parte ativa em seu ser. E esta necessidade de mudar me fez parar no dia seguinte e arriscar o L’amitié. Que jóia de restaurante. Um lounge todo envidraçado que é um charme e uma cozinha de fazer cair o queixo. Ele fica ao lado de um outro que recentemente abriu o Osteria, que creio que deve ficar para a próxima, pois, gosto de mudanças, mas elas têm que ser gradativas. Quase homeopáticas.

Mas estes meus dois quarteirões no Itaim Bibi, me fazem gostar cada vez mais de São Paulo.