quinta-feira, 4 de abril de 2013

O OUTROSSIM...

Outro dia, um leitor me perguntou, como eu era ainda dos poucos, que usava em quase todos os meus textos, a palavra, outrossim. Ele me perguntou num tom, que evidenciava achar ele que o uso constante da mesma, fosse um indicio de irrefutável pederastia. Imediatamente uma situação vivida no inicio de minha existência veio a minha mente.

Eu era ainda um guri. Quatro, talvez cinco anos. Com certeza não mais do que seis, pois, ainda me lembro que o fato ocorreu do outro lado da rua, da vila em que morava na rua Bulhões de Carvalho, em Copacabana. Mais precisamente em frente da farmácia do senhor Henrique.

Duas pessoas abandonaram o estabelecimento comercial e discutiam. Eu que brincava com um meu vizinho, o da casa ao lado, a 3, não sei por que passei a dar mais atenção a discussão do que propriamente a brincadeira, que nem me lembro qual era.

Naquele tempo, ainda havia pouco movimentação de carros, mesmo em um bairro populoso como era o de Copacabana. Estamos falando de meados dos anos 50 e a discussão calorosa, fazia com que as palavras chegassem a meu conhecimento, sem interferência de outros barulhos. Foi quando o grandalhão disse de forma ameaçadora, num tom de torpeza inexcedível e como aquilo fosse uma verdade bíblica: Outrossim, antes que me esqueça, você é um escroto e corno!

O ponto de interrogação é por minha conta. Os demais adereços, não.

O baixinho e gordinho, arregalou os olhos,  eles quase saíram de suas órbitas, ficou momentaneamente sem respiração, como um solitário afogado, mas imediatamente voltando a seu estado colérico, respondeu: Corno não!

Por um processo de associação infantil, imediatamente captei que ser escroto não devia ser tão mal assim, corno nem pensar e que outrossim, era uma palavra que me fascinava. Fora ela que dera inicio a tudo.

Afinal, o sentido da mesma, era para mim, totalmente obscuro, mas a palavra soava de uma forma mágica em meus ouvidos. Ela criava uma espécie de halo entre eu, criança, e aquela situação inusitada, vivida por dois adultos. Um outrossim...

E por que, estou contando isto? Porque na mão do agredido nominalmente, apareceu uma faca, que foi convenientemente enterrada nas costas daquele que agora tentava se afastar. Foi o primeiro crime infantil de minha existência.

O atacado sem conseguir tirar a faca de suas costas, assim mesmo virou-se e partiu para cima do agressor e lhe deu uma tremenda surra. Só me lembro daquelas três palavras, outrossim, escroto e corno, além daquela faca pendurada às suas costas, que balançaca a cada catiripapo que ele desferia no pequeno inimigo.

Não me lembro exatamente como acabou a coisa. Dizem que ambos sobreviveram. Sei que uma multidão inverossímel, brotou das calçadas de pedras portuguesas, pois, naquele tempo as pessoas ainda se importavam em separar brigas e evitar assassinatos. Hoje, creio que ninguém desviaria um centímetro sequer de seu destino, para apaziguar os ânimos.

Minha mãe me colocou para dentro de casa e antes que ela voltasse à porta para tomar conhecimento do epilogo da ópera, lembro-me de lhe ter perguntado, o que era outrossim, embora não conhecesse também o significado de escroto e muito menos de corno. Mas foi o tal do outrossim, que nunca mais abandonou a minha mente.

Quanto cheguei na manhã seguinte ao primário do Colégio Santo inácio, fui direto a minha professora, que se chamava Vera e tinha uma irmão por quem me apaixonei, chamada Fernanda e a primeira coisa que fiz foi perguntar, o significado da palavra outrossim. E ela me disse, : Porém, contudo, todavia e outrossim. Tudo representa a mesma coisa. Quando perguntei pelas outras duas, fui colocado de castigo, sem poder participar do recreio.